segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Recordando o Passado

O CASCO ANTIGO DE TORCENA

    Seguindo a rota de visita do Museu Etnográfico, vamos encontrar o casco antigo de Torcena, casas térreas com mais de cem anos de existência, onde viveram várias famílias ao longo dos anos, que muito dignificaram esta localidade.
  Mesmo junto às granadas colocadas ali posteriormente, calcula-se que por volta dos anos quarenta, aquando das comemorações do quarto centenário da existência da Fábrica da Pólvora, quando foram feitos alguns embelezamentos, nomeadamente a colocação dos painéis de azulejos à entrada do portão sul daquela unidade fabril, trabalho executado pelo pintor Jorge Colaço, vamos encontrar uma série de casas que hoje representam a antiguidade desta terra que já tem registos desde o século XIII, aquando tudo pertencia a comunidade dos “Homens de Torgena”, clã dedicada à agricultura.
  Algumas dessas casas têm recebido beneficiações desde sempre, muitas até já foram trocadas por edifícios modernos, como aconteceu com a casa da mãe da Elvira Loura, e o armazém do Vítor Marques que foram transformados num café e num Pub.
  Todavia ainda vamos encontrar a moradia do Vítor Marques, também antigo funcionário da Fábrica da Pólvora, casado com a ti Palmira e pais da Ivone Pires e do Desidério Marques.
 Mais ao lado, geminada, encontra-se a casa onde viveu a família do Ilídio Figueiredo, casado com a Luísa do Décio, que também era guarda na Fábrica da Pólvora.
     Na rectaguarda está a casa onde viveu a família do Alfredo Pires e outras famílias, até chegarmos ao edifício onde se encontra hoje o restaurante Parreirinha, que antes era uma taberna e carvoaria, um lote de casas que mostram bem a antiguidade deste lugar.
 Mesmo junto ás granadas que dão início à estrada militar dos eucaliptos, de acesso à Fábrica da Pólvora, vamos encontrar casas também muito antigas que de momento se encontram em total ruína, como aquela onde viveu o Manuel Martins, motorista profissional de táxi e a sua esposa Carmina, e ao lado, geminada, viveram outras famílias, uma delas era a do António Sapateiro, mas antes, logo no início do século XX, ainda nos recordamos de ter lá vivido, nesse recanto, com divisões minúsculas a família da Pipa que era lavadeira e seu marido funcionário da Junta de Freguesia, cujo trabalho era acender todos os dias os candeeiros urbanos que funcionavam a petróleo nas ruas da freguesia.
   Num espaço muito mais alargado, pois possuía quintal, vivia o velho General, que apenas era militar pela alcunha que possuía, pois conhecemo-lo sempre como pedreiro, casado com a Rosa Zeferino, pais da Natália que viria mais tarde a casar com o João Boletas natural da Agualva mas jamais deixando esta terra.
    Esse espaço fora sempre muito bem preservado e ainda hoje se encontra alindado e com boas condições de habitabilidade.
  Mesmo em frente do lado oposto da rua empedrada, que esteve muitos anos sem nela passarem carros, devido os portões se encontrarem sempre encerrados existia o quintal do Calmaria que possuía uma mercearia mesmo no largo da Tenda, onde o João Galego, tivera a honra de criar um dos primeiros comércios da terra, vendendo de tudo um pouco.
   Nesse espaço, mesmo colado às granadas que ladeavam o portão de entrada da Fábrica, onde mais tarde o seu filho guardava a sua burra já que possuía, uma carroça para o seu serviço, morou por misericórdia uma família muito pobre cujo patriarca e filhos trabalhavam na Fábrica da Pólvora, mas a matriarca, a Ludovina, governava-se de alguns biscates que fazia, nomeadamente lavar roupas, limpar casas e outros serviços domésticos,
   Um dos filhos por infelicidade, precisamente o Valentim acabaria por morrer afogado na praia da Ericeira e o outro, o Rui desapareceu por completo do lugar que nunca mais ninguém lhe pôs a vista em cima
    A Ludovina e os seus filhos, viviam numa barraca sem as mínimas condições, pois nesse tempo, anos quarenta e cinquenta a vida era demasiado difícil e devido à fraqueza das receitas que auferiam para seu modesto lar, se obrigavam aquele martírio, saindo dali, depois de melhorada a situação especialmente das duas filhas, a Cremilde e a Maria, que após o casamento, abandonaram o local, mas a mulher essa ficou, sendo mais tarde recolhida por uma das raparigas, pois, embora a barraca tivesse de ser demolida, para nesse espaço se construir habitação, a pobre senhora sofria de perturbações mentais.    
  Mesmo junto a essas casas antigas existia a Calçada do Jordão, pois recebeu esse nome devido a meio da artéria viver um senhor com esse nome, mas a estrada empedrada, o que ainda hoje acontece, era muito antiga, pois dizia-se que deveria ter mais de trezentos anos, pois era uma alternativa para o pessoal oficinal atingir a Fábrica de cima.
  Foi sempre uma calçada sem grande movimento, servindo apenas os moradores desse bairro que, aos poucos o velho Jordão foi construindo, casas que ainda hoje existem, mas esse arruamento encontra-se praticamente como nesse remoto tempo, sendo mesmo um dos locais mais antigos de Torcena.
   Mesmo no largo, que desde sempre recebera o nome de 1º de Maio, encontra-se a mercearia do “Lagarto”, cujo edifício está completamente abandonado, degradado e sem qualquer utilidade, e no estado em que se encontra, só depois de executadas avultadas obras, poderá ter alguma utilidade, casa onde se encontra gravado em azulejo, o nome antigo da terra “Torcena”, edifício que ainda se encontra naquele estado por a família não estar muito interessada em recuperá-lo.
  Ao lado dos muros do Quintal do Vítor Marques, hoje transformado num moderno café, encontra-se a casa que pertenceu à Laura do Quirino, onde viveu até aos seus últimos dias de vida, só que em 1933, essa pobre mulher acabaria por ficar viúva devido o chefe de família ter encontrado a morte numa terrível explosão na Fábrica da Pólvora.
    O núcleo antigo da localidade envolvia ainda algumas casas que comunicavam com o caminho da fonte e lavadouro municipal, que seguia para o lugar do Bico, pois toda essa artéria, onde não podiam circular viaturas é também muito antiga.
    Hoje tem o nome de Travessa 5 de Outubro e começa precisamente com a casa do Donões que foi maquinista de caminho de ferro nesse tempo e do outro lado, de uma velha casa que acabaria por ficar mesmo no meio da rua principal, depois do alargamento da Av. Santo António, devido a teimosias dos seus inquilinos, imóvel pertencente a um sargento do Exército, morador em Laveiras, mas nele vivia uma família composta por casal e duas filhas, o Senhor Mateus, a D. Esperança e as suas duas excêntricas filhas, Dinora e Gabriela.
   O núcleo antigo dispersava-se depois até à igreja com uma casa aqui e acolá, terminando mesmo no casal da Azarujinha, a caminho de Massamá, onde vivera a família dos “Guizos”, a uns metros antes, a família do Tapiço e quase ao lado situa-se ainda hoje a linda vivenda “Quinta das Lindas” que pertenceu a um comerciante de tapetes da capital, ocupada durante muitos anos pela família do Jacques Pinto, mas hoje propriedade da Câmara Municipal de Oeiras. 
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segunda-feira, 11 de julho de 2011

A família Sinel Cordes de Barcarena

Era a legítima proprietária da
QUINTA DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO

   A Quinta Nossa Senhora da Conceição em Barcarena, é uma das propriedades mais antigas da freguesia e foi mandada construir no século XVII, pela família de Sinel de Cordes, um grupo de cavaleiros flamengos chamados a Portugal por Filipe II para recolherem os impostos.
   O edifício tem uma austeridade medieval, construído em 1641, já depois de finda a dinastia filipina, expulsa de Portugal em 1640, possuindo um portal maneirista da entrada e encimado por um brasão de pedra da família Cordes, constituído por dois leões adossados.
    O interior deste “solar” é ornamentado com belos e raros painéis de azulejo do século XVII e a capela, dedicada a S. João Baptista, tem um altar com embutidos de mármore florentino policromo, obra do famoso arquitecto, João Antunes.
   As paredes são revestidas a azulejos assinados por Gabriel del Barco e datados de 1697.
   Trata-se de um imóvel de valor concelhio, adquirido pela autarquia oeirense, por cerca de dois milhões de euros e entregue agora a uma escola.
  Nele viveu, o benemérito José Sinel de Cordes e a quinta nos últimos anos de vida deste famoso e considerado homem de Barcarena, precisamente no início do século XX, constituiu o celeiro da terra por tudo ali se criar.
  José Sinel Cordes tinha mais um irmão, o famoso General João Sinel de Cordes que vivia em Laveiras na Quinta do Jardim, que foi ministro de António Oliveira Salazar.
   José Sinel Cordes nasceu a 12 de Março de 1857 e em toda a sua vida foi uma pessoa generosa, ajudando os pobres, emprestando, inclusivamente, terrenos seus dentro da própria quinta a moradores para criarem as suas hortas e delas poderem sobreviver, uma vez que a vida nesse tempo era muito difícil para os mais necessitados.
    Possuía um lagar onde produzia o azeite, não só dos seus olivais, como de outras pessoas e no rio tinha uma azenha que, quando os moinhos da freguesia não funcionavam por falta de vento, recorriam ali, para moerem os seus trigos e transformá-los em farinha.
    O seu excesso de bondade era tal, que o levou a criar na quinta um serviço alimentar totalmente gratuito extensível a todos os pobres que ele conhecia na freguesia de Barcarena, gesto que o tornou, não só mais famoso, como muito querido pela população de Barcarena e não só.
   Sinel de Cordes contratou mesmo uma funcionária, a Maria Prancha para tratar dessas refeições, o que fez com que a população o considerasse uma pessoa querida, pelos seus gestos de bondade e solidariedade para com a classe mais desfavorecida.
  Para além desta importante oferta, José Sinel de Cordes ainda determinara dar esmola aos pobres que lhe batessem à porta, uma vez por semana, o que se fazia sempre com uma extraordinária boa disposição por um dos seus caseiros, deixando os desfavorecidos muito reconhecidos com o gesto daquele barcarenense.
  Também no dia de “Pão Por Deus”, o benemérito dava grandes quantidades de frutas e dinheiro aos que ali compareciam e a rapaziada, de saco bem cheio, regressava feliz, porque o ti Zé era boa pessoa e nunca se esquecia das crianças da terra no dia 1 de Novembro.
   José Sinel de Cordes prometeu que, quando morresse pretendia ir descalço para a cova e vestido com as suas piores vestes e assim aconteceu no dia 20 de Março de 1938, tendo sido sepultado no cemitério de Barcarena onde ainda hoje se encontram os seus restos mortais.
    Por todas estas razões depois da sua morte foi criada uma rua com o seu nome, mas após a revolução do “25 de Abril” essa artéria, inexplicavelmente passou a chamar-se Felner Duarte, outra figura de mérito em Barcarena, o que causou grandes protestos, considerado mesmo uma grande injustiça, não porque o novo “dono” da rua, não o merecesse, pelo seu atrevimento e coragem contra o ditador Salazar, pois ambos tinham cabimento na toponímia da freguesia, mas sim pela injustiça do acto, na medida em que a família Sinel de Cordes tinha sido gente exemplar dentro de Barcarena.
  Esta inesperada e reprovada atitude levou muita gente a revoltar-se, porque na realidade ele não merecia tão grande desfeita.
    A Quinta hoje foi cedida a uma instituição particular por parte da Câmara Municipal de Oeiras que adquirira por cerca de dois milhões de euros para fins escolares, sendo a “Oeiras International School” que a está a administrar, mas encontrando-se em obras de restauração e preparação para a sua nova actividade.
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segunda-feira, 20 de junho de 2011

O Lugar do Bico em Tercena

  JÁ EXISTE DESTE O TEMPO DOS VELHOS ENGENHOS DE FAZER PÓLVORA
 Um lugar onde viveram muitas famílias durante o século passado e hoje está resumido a pouca gente, pois, ao que julgamos saber, as suas casas irão ser demolidas por muito antigas e obsoletas se encontrarem, sem as mínimas condições de habitabilidade, sendo os seus moradores, obviamente, transferidos para um novo bairro que irá ser construído um pouco mais adiante.

   O lugar do Bico, pertencente à localidade de Tercena é um dos locais mais antigos desta povoação da freguesia de Barcarena.
    Um lugar onde viveram muitas famílias durante o século passado e hoje está resumido a pouca gente, pois, ao que julgamos saber, as suas casas irão ser demolidas por muito antigas e obsoletas se encontrarem, sem as mínimas condições de habitabilidade, sendo os seus moradores, obviamente, transferidos para um novo bairro que irá ser construído um pouco mais adiante.
    Com esta demolição, pretende a Câmara Municipal de Oeiras dar um outro aspecto ao local, inclusivamente construir uma ponte para que as urbanizações da outra margem já edificadas e toda a área ajardinada possam ser mais visitadas e inclusivamente facilitar a passagem aos seus moradores por forma a servirem-se da povoação de Tercena.
     O Bico ainda exibe, embora em grande estado de degradação, vestígios da vivência que ali se fazia no século XV e seguintes relacionados com os antigos engenhos de fabrico de pólvora, são a prova dessa mesma antiguidade.
  Nesse mesmo local vamos encontrar enterradas na lama, no leito do ribeiro, algumas pias de pedra com que os trabalhadores daquele tempo fabricavam a pólvora que seguia para as possessões ultramarinas da grande epopeia marítima de D. Henrique.
     Existiam à beira do ribeiro engenhos de fabrico de pólvora e ali funcionou um, durante algum tempo e por isso concluímos que algumas das habitações que ali ainda hoje se encontram, remontem a esse tempo, embora tivessem sido reconstruídas e melhoradas através dos tempos.
     Os engenhos funcionavam ali, sob alvará passado pelo reino, só que as condições de trabalho eram muito rudimentares e por isso de quando em quando verificavam-se explosões, pelo que D. João V, vendo o descalabro existente mandou vir da Suiça um famoso técnico, chamado António Cremer para construir uma fábrica de pólvora, que passou a chamar-se Real Fabrica da Pólvora, para que a mesma produzisse os explosivos mas de forma mais segura, o que aconteceu precisamente em 1729.
     Essa primeira fábrica foi edificada no local onde mais tarde, já nos nossos tempos, precisamente em Junho de 1994, a Câmara Municipal de Oeiras criou o Museu da Pólvora Negra.
    Os obsoletos engenhos de fabrico de pólvoras edificados à beira do ribeiro persistiram até ao século XVIII e nelas faleceram muitas pessoas, pois, segundo relatam as velhas histórias que até aos nossos dias chegaram, “quase todos os dias havia explosões e nessas obsoletas oficinas, trabalhavam escravos e condenados à morte e era assim que cumpriam os seus castigos, pois mantinham-se vivos enquanto não se registassem acidentes, perdurando a sua existência, embora condicional, enquanto fossem vivos”.
   Obviamente que não há certezas destas discrições, mas a verdade é que os antigos contavam estas histórias, pois já garantiam que já vinham sendo transmitidas de gerações em gerações e como tal eram credíveis, só que nada consta escrito que assim tivesse acontecido, no entanto a existência de “fabriquetas” à beira do ribeiro, isso ninguém tem dúvidas, já que, para além de haver escritos sobre tal, ainda hoje se podem encontrar esses vestígios no lugar do Bico que bem testemunham a sua existência.
    Curioso é observarmos ainda hoje a forma como se roubava a água à ribeira, para encher as duas grandes caldeiras existentes na fábrica, uma vez que todo o sistema funcionava com a força hídrica, pois quando havia seca, a água tinha de fazer mover todos os engenhos montados e as caldeiras eram uma grande reserva para que não houvesse interrupções no serviço, que ainda hoje podem ser visitadas.
   No leito do ribeiro, precisamente no lugar do Bico, foi criado um sistema, onde uma comporta desviava as águas para uma represa, que através de uma canalização, as levava até a uma das caldeiras, situada a cerca de trezentos metros.
   As comportas eram imediatamente accionadas quando havia “deficit” de água, as caldeiras eram cheias e quando as mesmas atingiam os níveis máximos, voltavam a funcionar, mas desta vez para devolverem de novo a água ao ribeiro.
    Paralelamente a este funcional serviço e ajuda prestada pela própria natureza, existia também um outro circuito hídrico que levava a água desde Massamá à Fábrica da Pólvora, por condutas defendidas por uns edifícios, a que o povo se habituou a chamar “minas” já que através deles o líquido era vigiado constantemente por funcionários especializados, uma vez que a água era potável, servindo, na sua passagem, a população de Tercena, que dela se servia durante todo o ano, só que era insuficiente para o funcionamento dos engenhos da Fábrica da Pólvora.
    O lugar do Bico foi por estas razões sempre um local de referência, pois era dali que partia a força hídrica, desde o século XVIII até a meados do século XX, uma vez que, a partir do momento em que a água já não era necessária para colocar a maquinaria em funcionamento, devido ao aparecimento de sistemas mais sofisticados, inclusivamente, a força diesel e mais tarde a luz eléctrica, aquela estrutura construída no lugar do Bico ficou praticamente ao abandono e a pequena caldeira, entre comportas, a que roubava a água ao ribeiro e que depois a devolvia, serviu de piscina para a juventude tomar banho, mas a degradação foi apoderando-se de todo aquele espaço e agora não passa de um amontoado de ferros e betão, envolvidos em arbustos e lixos, sem qualquer utilidade, por onde as águas passam livremente na sua caminhada desde Almornos, onde o ribeiro se inicia até à sua foz no Tejo em Caxias.
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segunda-feira, 13 de junho de 2011

Os Casais Agricolas de Tercena


O CASAL AGRÍCOLA DA FAMÍLIA TAPIÇO

     Mesmo na rua principal da localidade de Tercena, ao cimo, existia o Casal do Tapiço, chefe de uma família numerosa, pois possuía seis filhos, quatro raparigas e dois rapazes, por isso o casal tinha sempre um razoável movimento, pese embora as lides de casa fossem na totalidade executadas pelos progenitores, embora as filhas dessem por vezes alguma ajuda.
    O Clemente trabalhava na Fábrica da Pólvora de Barcarena e o Fortunato estava estabelecido em Lisboa com uma mercearia, pois desde muito cedo decidira-se por um negócio individual, pouco interessado em continuar a vida de seus pais.
   O Casal possuía vacas, e outros animais, mas poucos, mas mesmo assim o trabalho era intenso pois cuidar dos animais era difícil, já que logo de manhã cedo teriam de ser postos a pastar nas imediações e pela tarde recorrer o leite, pois para além de ser uma mais valia para a criação dos filhos, grande parte era vendido a particulares.
 O Tapiço era casado com a Estefânia Antunes, mulher muito activa desde sempre, pois tudo agarrava com muita devoção e de todas as tarefas se desenvencilhava com êxito.
   Apesar do seu duro trabalho, cuidar dos filhos e dos animais que possuía, ainda arranjava tempo para em certas épocas do ano participar nas festas locais, pois as suas iniciativas, eram excelentes e toda a gente gostava de trabalhar com ela, porque, era uma mulher pragmática e sobretudo muito criativa.
     Dotada de uma grande coragem, daí ter sido uma das principais protagonistas da interrupção do roubo que estavam a fazer na sua igreja mesmo durante o dia quase à vista de toda a gente.
    A Estefânia estava em sua casa a pouco mais de vinte metros da capela de Santo António, quando de repente ouviu ruídos dentro dela.
  Logo adivinhou que se tratava de obras, só que, ela não tinha conhecimento de tal, uma vez que tudo quanto ali se passava, era do conhecimento da população, por tão pouca actividade se registar naquele tempo.
  Demais a preocupação com a I Guerra Mundial, dava dores de cabeça ao povo, pois de Torcena tinham saído vários jovens e só isso bastava para os nervos andarem sobressaltados.
  Tirou de si e foi ver o que se passava, já que a entrada do templo ficava oposta à sua casa e quando ali chegou deparou com dois guarda republicanos, montados em cavalos nas escadas da capela.
    Perguntou o que estavam ali a fazer e os guardas, mal educados, responderam-lhe secamente que nada tinha a ver com isso.
  Ficou preocupada, mas ficou a saber que na realidade algo se passava dentro do templo.
   Contou ao marido a sua descoberta e no dia seguinte, quando os guardas lá se encontravam no mesmo sítio, parte da população, cerca de vinte pessoa, dirigiu-se para a capela e sob as ordens da corajosa Estefânia, esta acabou por entrar à força, passando por debaixo dos pesados animais, mas viu com os seus próprios olhos que dentro, estavam dois homens a retirarem os azulejos que mostravam alguns pormenores da vida de Santo António.
 Os homens ficaram assustados e nada souberam responder, só que o povo entrou de rompante, os guarda republicanos fugiram e os pobres trabalhadores que estavam ali a mando de alguém que não sabiam dizer quem, aproveitando a confusão conseguiram subir para cima da galera que estava encostada na rua ao lado do templo e fugiram com parte dos azulejos que já tinham retirado da parede.
   E assim a capela de Santo António ficou sem uma parte daquela magnífica colecção que retratava algumas das parábolas do santo, que ali tinha sido colocada no século dezoito, precisamente no ano de 1742.
    A Estefânia ficou célebre pela sua coragem e daí em diante a mulher do Tapiço foi considerada pelo povo uma heroína, não só pelo seu feito, como também por ser sempre ela a encabeçar as organizações das festas em honra de Santo António, que passaram a ser feitas na mesma durante algum tempo, mesmo com a capela encerrada, pois o Patriarcado acabaria por determinar a profanação do templo o que aconteceu até finais dos anos cinquenta do século passado.
  As festas acabaram por deixar de se fazer, devido a terra na altura em que se festejava este santo tão popular, ser assolada por muito vento e como tal dificultava a sua realização, pois as pessoas acabavam por não aparecer por ser bastante desagradável.
  Contam os idosos que disto ainda se recordam, que numa dessas vezes, tudo estava enfeitado para no dia seguinte se realizar a festa e quando acordaram no dia de Santo António, tudo estava destruído, pois até a Kermesse ficou derrubada, com alguns efeitos a voarem e só terem parado em Barcarena, a dois quilómetros de distância.
   Foi razão mais que suficiente para se acabar com a festa que só se viria a organizar depois do templo ser reactivado quase quarenta anos depois.
  Com aquela atitude insólita e inesperada do roubo dos azulejos a igreja por se encontrar profanada esteve encerrada e no seu interior, foram-se acumulando lixos, materiais de construção e palhas para os animais que possuíam os guardas do templo, um casal que dormia ao lado, num anexo.
   Mais tarde, precisamente em 1928, fundou-se uma colectividade em Tercena e a igreja de Santo António foi a escolhida para sede provisória funcionando como tal, durante dez anos.
  Entretanto o Tapiço e a sua esposa acabaram por desaparecer deste mundo, e o conjunto de casas que formavam o seu bairro, foram herdadas pelos filhos, que passaram a habitá-las, mas a vida que seus pais levavam, a agricultura e criação de gado bovino e algum caprino, é que jamais continuou.
    A Maria Augusta, uma das herdeiras ficou com uma parte do casal e nela mandou construir, em 1930, um andar por cima, tal qual as suas irmãs Elísia e Amélia, mas estas muito mais tarde por intermédio de seus filhos e o pequeno bairro composto por cinco casas encontra-se hoje dividido pelos cinco irmãos, já que o Fortunato, como entretanto se tinha radicado em Lisboa onde possuía o seu negócio, recebeu tornas dos irmãos, desvinculando-se dos direitos como herdeiro, recebendo o dinheiro e pouco se interessando por aquele valor, uma vez que o negócio na capital lhe era bastante rentável.
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sábado, 11 de junho de 2011

Ainda a frustrada geminação com Barcarena do Pará

AS “BARCARENA’S” DE OEIRAS E DO PARÁ
LIGADAS PELO MESMO SENTIMENTO RELIGIOSO
   Ao lembrarmos a irmandade do Glorioso S. Sebastião de Cachoeira do Arari, no Brasil e a ida dos seus devotos a Belém do Pará, numa pré peregrinação, vem-nos à memória os tempos em que S. Sebastião era um santo querido em Barcarena.
  Hoje só nos podemos regozijar com as semelhanças que aparentam possuir com o patrono de Cachoeira do Arari, pois se as viagens se fazem há dez anos a Belém, aqui em Barcarena, faziam-se há nove décadas, quando a Ermida, então privada de S. Sebastião, abria periodicamente ao culto a toda a população e a irmandade, organizava a sua festa a 20 de Janeiro, fazendo-o passear em procissão por cerca de trezentos metros até à igreja Matriz de S. Pedro.
     S. Sebastião vivia de mãos dadas com o terceiro santo mais popular de Portugal e ambos tinham os seus templos, aliás continuam a ter, só que, enquanto um se transformou em Igreja Matriz da Paróquia de Barcarena, o outro, depois de recuperado pela autarquia, virou a Casa Mortuária e os festejos perderam-se por falta de interesse, ou quem sabe, esquecimento daquele que chegou a ter um peso religioso idêntico a S. Pedro. Até neste aspecto existe uma grande afinidade entre as duas Barcarena’s, já que a história que as gentes do Marajó contam, como terá nascido a nomenclatura daquela localidade, é praticamente idêntica à que por cá se vai recordando, ou seja “a bela princesa de nome Rena, vivia perto do ribeiro e passeava todos os dias na sua linda barca”.
  O povo que passava ao lado, ao vê-la nos seus passeios matutinos e por vezes vespertinos, logo dizia embasbacado, como que coisa mais linda nunca tivesse visto, “lá vai a barca de Rena” e assim ficou para sempre o nome daquela terra que é presentemente sede de freguesia e pertence ao concelho de Oeiras, que por ironia do destino, também vamos encontrar perto do Piaui na Amazónia.
      S. Sebastião era um santo idolatrado por uma família abastada de “Barquerena”, que por tal, mandara construir aquele templo no século XVI.
     A Capela de São Sebastião de Barcarena, protector dos doentes da peste e dos artilheiros, teria sido um antigo moinho, ao qual se anexou uma pequena nave, o que, em nosso entender, não nos parece muito provável, já que a mesma se situa na base duma elevação com mais de cem metros de altitude, mesmo junto ao ribeiro, local pouco provável para tal edificação, no entanto outros garantem que a sua localização afastada do centro, se ficou a dever ao facto do seu padroeiro, ter sido o santo dos doentes infecciosos.
   Não é conhecida a data de construção do templo, mas uma das pedras tumulares no seu interior, regista a data de 1599.
    Esta Capela constitui um dos poucos exemplares deste tipo de arquitectura em templos católicos, pela sua planta circular.
    Não obstante, o actual templo foi alterado do original, tendo sido reconstruído em finais do século XVIII, merecendo especial atenção os azulejos do início do século XIX, o púlpito, uma pia de pedra do século XVIII e o retábulo de madeira pintada e dourada da capela-mor, com uma escultura de São Sebastião em madeira estofada.
   De realçar também o magnífico trabalho de escultura com decoração de folhagem e de flores.
     A Capela, que tem sofrido diversas reformulações e restauros ao longo dos anos, esteve dotada ao abandono durante longo período, pelo que umas grandes obras tiveram lugar em 1999/2000, preservando esta memória patrimonial, que se encontrava muito degradada.
    Neste templo guardam-se ainda os restos mortais de uma das proprietárias dessa grande quinta, que hoje é conhecida pela “Quinta do Sobreiro de Baixo” e que viria mais tarde a pertencer à família de Álvaro de Bré, um grande e famoso escultor, que deixou obra por todo o mundo, sendo a mais famosa, entre muitas outras, a que se encontra edificada na Califórnia.
       Em 1939, Álvaro de Brée foi convidado a conceber a estátua dedicada a João Rodrigues Cabrillo, que acabaria por estar patente ao público no ano seguinte, na grande exposição de S. Francisco nos Estados Unidos da América, encontrando-se ainda em Point Loma - Sant Diego na Califórnia.
   Cabrillo foi um famoso navegador e explorador português do século XVI, nascido em 1499, falecido em 1543, tendo-lhe sido atribuído o feito de atingir a Califórnia.
  Ao serviço da coroa espanhola, o então Juan Rodriguez Cabrillo, efectuou importantes explorações marítimas no Oceano Pacífico, nomeadamente a costa Oeste, actuais Estados Unidos da América e por terra na América do Norte, participou na conquista da capital Azteca.
    Álvaro de Brée foi também o autor da estátua erigida em Beja a D. Leonor, irmã de D. Manuel I, esposa do rei D. João II, uma magnífica obra escultórica que os bejenses muito se orgulham, evocando a grande criadora das Misericórdias em Portugal.
    Este trabalho foi solicitado pelo governo de António Oliveira Salazar, e acompanhado pelo seu ministro, José Hermano Saraiva, que visitou por diversas vezes o escultor no sentido de se inteirar da realização da obra.
    Álvaro João Vella de Brée, viveu na Quinta do Monte em Barcarena, numa linda casa apalaçada construída em 1835 século XIX, bem perto da capela de S. Sebastião, tendo sido um dos mais famosos escultores da primeira metade do século passado.
    A sua quinta ainda hoje é considerada a jóia arquitectónica da freguesia de Barcarena, só que os seus filhos guardam nela, incompreensivelmente escondida, parte da obra do pai que não foi comercializada e como tal deveria ser mostrada a toda a gente, só que um deles, opôs-se terminantemente a tal e o local inicialmente escolhido há uns anos atrás foi precisamente a ermida de S. Sebastião, quando ela ainda estava em ruínas em risco de se perder, mas graças à atenção de Isaltino Morais, presidente da Câmara Municipal de Oeiras, a mesma foi recuperada e devolvida ao povo, com a finalidade de guardar por momentos, os corpos jazidos dos seus moradores, antes de baixarem à terra.
     Barcarena, continua ainda esperançada que um dia a sua conterrânea do Pará, se lembre de reactivar a tão discutida geminação, porque muitas mais histórias se viriam a descortinar de um lado e de outro, muitas mais amizades se iriam criar e não só a que perdura entre Fernando Silva e José Varella, e muito profícua viria a ser, social e economicamente.
     Aguardemos tempos melhores e sobretudo apelar a S. Sebastião e porque não S. Pedro não possa também dar uma ajudazinha, para que na realidade voltem com alegria os anos já saudosos do final do século passado, onde as duas Barcarena’s, pareciam encetar um caminho próspero e de entendimento, mas depois… depois tudo arrefeceu, e foi com grande mágoa que nós por cá vimos tristemente gorado tão interessante e profícuo projecto de geminação.
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segunda-feira, 30 de maio de 2011

A QUINTA ONDE VIVEU A FAMÍLIA DO CAPITÃO SILVEIRA ANTES TINHA SIDO PROPRIEDADE DO ESCULTOR BARATA FEYO
   A Quinta do Capitão Silveira, de seu nome próprio, António Luís da Silveira, era vulgarmente conhecida desde sempre, pela “Quinta do Senhor Capitão”, casado com a D. Maria Luísa Couceiro Feyo Silveira e situava-se em Tercena em plena Av. de Santo António.
     A propriedade acabaria mais tarde, nos anos oitenta, por ser demolida pelos seus últimos proprietários, para que não fosse invadida pelos refugiados de Angola e Moçambique, que na altura lutavam por uma casa e que tinham vindo de África e o capitão acabaria por ser um dos últimos a viver nela, embora ainda tivesse lá vivido uma outra família, mas por pouco tempo.
    Um dos primeiros moradores da Quinta, que tivemos conhecimento, foi de facto o famoso escultor Salvador Carvão da Silva d'Eça Barata Feyo, militar graduado, pois atingiu a patente de general, nascido em Moçâmedes, a 5 de Dezembro de 1899 e tendo falecido 90 anos depois, precisamente a 31 de Janeiro de 1990.
    Esta ilustre figura das nossas artes e do exército, que se supõe ainda ter sido parente da esposa do capitão Silveira, foi autor de inúmeros trabalhos que se encontram espalhados pelo nosso pais e estrangeiro. Frequentou o Colégio Militar, mas concluiu o Liceu em Coimbra e em Lisboa, obras como a Estátua de Bartolomeu Dias na cidade do Cabo concebida em 1952, estátua de Francisco Sanches construída em 1954 em Braga, o monumento a Almeida Garrett criado em 1951 e edificada na praça Humberto Delgado no Porto, entre muitos outras.
   Terminou o curso de Escultura em Julho de 1929 na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, onde frequentou, também, os cursos de Pintura e Arquitectura, respectivamente em 1923-1924 e 1924-1925.
   Em 1933 esteve em Itália como bolseiro do Instituto de Alta Cultura e no ano de 1949, deixou Tercena, uma vez que teve de viver no Porto, onde fixara residência, já que fora colocado como professor na Escola Superior de Belas-Artes, período que mediou entre 1949 e 1972.
    Entretanto de 1950 e 1960, Barata Feyo foi Conservador Adjunto dos Museus e Palácios Nacionais e Director do Museu Nacional de Soares dos Reis.
   Publicou dois livros sobre “A Escultura de Alcobaça” e “José Tagarro” e vários estudos sobre artistas portugueses no jornal O “Comércio do Porto”, entre muitíssimos trabalhos que lhe deram uma grande fama.
    Depois dele, vivera uma outra família que pouco tempo nela estivera, devido a uma das senhoras que lá viviam, que se supõe ser a esposa do arrendatário, ter-se suicidado com um corte nos pulsos.
  Após este incidente, a quinta ficou livre, mas também esteve nela pouco tempo, pois a mulher acabaria por morrer no hospital e o capitão Silveira, que vivia na Quinta do Marques Café, um pouco mais para norte da localidade, mudou-se imediatamente para lá por entender possuir uma habitação com melhores condições que aquela onde vivia, e também porque a família aumentava, embora também fosse dotada com um bom espaço agrícola .
    O Capitão Silveira viveu ali durante alguns anos, onde cresceram os seus netos, conjuntamente com a família, pois tratava-se de uma vivenda muito antiga.
   Era uma casa bonita, murada para a rua principal, possuindo igualmente boas condições para a agricultura, que passou a ser cuidada por um amigo que se prontificara a tal, a cobro de alguns legumes que ali produzia, já que a família estava muito ocupada com a sua vida.
  Chamava-se José, mas o povo conhecia-o por “Zé da Estaquinha”, alcunha que recebera na Fábrica da Pólvora e fazia aquele trabalho de hortelão, nas horas disponíveis, já que a sua mulher, a “Deolinda da Loura”, trabalhava na casa do capitão a dias, como doméstica.
     Foi precisamente nos anos quarenta que o capitão ocupou aquela propriedade, que confrontava com a casa do Duarte Silva, onde tinha sido criada a famosa mercearia do “Lagarto”.
  A Quinta em Tercena deixada pelo escultor, e onde passara a viver a família Silveira, uns anos mais tarde, depois da morte do militar, foi transmitida à filha do capitão, D. Helena Silveira Carrega, mãe do falecido João Luís Carrega e de Fernando Manuel Carrega, que viveram nela ainda alguns anos mais.
    Os netos do velho capitão cresceram, resolveram suas vidas e como a D. Helena ficara viúva, esta fora viver para uma propriedade no Cacém e a casa acabaria por ser ocupada por uma outra família, mas pouco anos depois ficara totalmente abandonada.
    Viviam-se o ano eufórico do “25 de Abril”, e logo os comunistas de Tercena, acharam que aquele edifício abandonado era ideal para a adaptação de uma creche para as crianças da terra e nesse sentido, começaram a agrupar vários materiais de construção, ofertas de amigos e simpatizantes do partido para se recuperar o edifício, mas esse movimento acabara por abortar, os materiais entretanto conseguidos desapareceram num ápice e o edifício manteve-se durante alguns anos completamente abandonado, degradando-se a ponto dos seus proprietários o terem mandado demolir, para não ser alvo de mais ilegalidades e ocupações selvagens.
   Hoje resta apenas o velho muro fronteiriço com a rua e o seu interior foi transformado numa grande horta, que é trabalhada por diversas pessoas que dali vão retirando os seus produtos hortícolas até que os seus verdadeiros e legítimos proprietários tomem decisões sobre o futuro daquele importante espaço mesmo no centro da população, que de ano para ano vai crescendo e obviamente valorizando-se bastante.
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domingo, 22 de maio de 2011

Lembrando Velhos Tempos

PARTE DO ESPÓLIO DA ENFERMARIA DA FÁBRICA DA PÓLVORA FOI PARA O MUSEU DE TERCENA
      
    É difícil explicar as razões porque ficou para o Museu Etnográfico de Tercena, todo o espólio existente na velha enfermaria da Fábrica da Pólvora, contudo uma vez que ela terminara as suas funções, sendo inclusivamente o edifício demolido, tudo quanto restava, passou para o Posto de Enfermagem da Junta de Freguesia de Barcarena que concebera numa sala no Grupo Recreativo de Tercena.
   Era uma velha aspiração do executivo barcarenense e a oportunidade surgiu precisamente quando a fábrica deixou de funcionar e então, desde os móveis aos utensílios médicos, tudo fora doado à Junta e colocado em Tercena, que, na altura dera um grande jeito, para de imediato se recomeçar com aquele serviço, reconheça-se, bastante desejado pela população tercenense.
    Passados uns anos, a sede do Grupo Recreativo de Tercena, foi alvo de obras de remodelação, pois a direcção que lá se encontrava nesse ano, interessou-se por tal e solicitou à Câmara Municipal para que remodelasse todo o seu interior, já que, exteriormente nada se podia fazer por o Plano Director Municipal não o permitir.
   A direcção que se encontrava, desejava fomentar o ténis de mesa, pois havia interesses particulares nisso, já que o jovem João Monteiro, que acabaria por se tornar um grande campeão internacional na modalidade, filho de um dos directores, estava em grandes progressos na modalidade e assim, com o salão apropriado para se colocarem mais mesas de ping-pong a modalidade poderia desenvolver-se muito mais, o que acabaria por acontecer.
   As obras foram feiras, inauguradas, mas sempre com a oposição àquela direcção a ser bem forte por parte de um grupo de sócios, contudo, descuraram o projecto e a verdade é que a nova sede nem sequer condições possuía para se efectuar teatro, actividade que já se desenvolvia na colectividade desde a sua fundação.
  Esse facto fora muito contestado, e só mais tarde se criou um espaço para as actividades teatrais, no seu anterior, adaptado à nova sala, que se apresentava ampla precisamente como a direcção pretendia para ali colocar várias mesas de ping-pong, mas o teatro ficou seriamente prejudicado, porque o novo espaço era pequeno e sem condições, mas teve de remediar, porque de outra forma não podia ser, depois das obras executadas.
  Na nova sede, previa-se que o velho posto de enfermagem não iria ser construído e antes de se iniciarem as obras a Junta de Freguesia de Barcarena pressionada pela população de Tercena, que estava a ver que iria ficar sem aquele serviço enquanto as obras durassem, solicitou a Fernando Silva que emprestasse uma das suas salas na Quinta do Filinto, para ali instalar provisoriamente o posto de enfermagem, pois adivinhava-se que o tempo considerado suficiente para as obras fosse muito para além do previsto e na realidade assim aconteceu, pois o espaço na Quinta do Filinto fora pedido por três a quatro meses e na realidade tardou três anos.
    Durante todo esse tempo todo, o posto de enfermagem funcionou provisoriamente na Quinta, assim como até, os treinos e jogos das equipas de ténis de mesa do GRT, passaram a realizar-se também ali a empréstimo de Fernando Silva que, na qualidade de amigo da colectividade nada exigiu para que tudo aquilo ali funcionasse.
    O Posto trabalhou normal e diariamente e quando as obras acabaram por ser inauguradas, sem grandes espantos toda a gente constatou que o Posto de Enfermagem da autarquia não tinha lugar na nova e remodelada sede do Grupo Recreativo de Tercena.
   Como entretanto tinha sido inaugurado o mercado Municipal de Tercena, logo se pensou instalar ali o Posto de Enfermagem, aliviando assim Fernando Silva.
  O posto foi mudado, contudo o seu recheio, na maioria foi rejeitado, pois não fazia sentido uma casa, praticamente nova, receber material antigo, obsoleto e praticamente já sem qualquer utilidade, pois as novas tecnologias impuseram-se e como tal, a Junta de Freguesia, propôs a Fernando Silva, a oferta de todo aquele velho espólio, par ao museu que entretanto se tinha criado na Quinta do Filinto.
  Fernando Silva aceitou e foi então que criou um recanto onde colocou não só a secretária, a velha cadeira giratória e todos os utensílios que tinham sido rejeitados na nova instalação e que, no Museu têm sido apreciados, não só por ter pertencido à famosa Fábrica da Pólvora, como por se tratar de peças muito antigas, praticamente sem uso nos tempos actuais e que na realidade só dentro de um museu teriam cabimento.
   Seringas, aparelhos de medir a tensão, ventosas, agulhas, caixas de esterilização e tantas outras coisas encontram-se assim, hoje em exposição mo Museu o que se considera uma mais valia para aquele espaço museológico de Tercena.
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