quinta-feira, 4 de outubro de 2012

O novo livro de Fernando Silva
“VERDADES DE ONTEM… HISTÓRIAS DE HOJE”

   Fernando Silva, depois de “Felner Duarte”, “Um Anjo Explosivo”, “Degredo e Negligência”,”O Poder da Fé e da Descrença”,”A Escravidão da Vida” e ”Restos da Vida”, acabou de escrever mais um trabalho, a que deu o nome de “Verdades de Ontem, Histórias de Hoje”, que procura sucintamente prestar “uma sincera homenagem a toda essa sacrificada gente que passou as mais incríveis tormentas para poder sobreviver, deixando muitos, um verdadeiro legado e historial, hoje considerado um autêntico tesouro bem difícil de entender, enquanto outros, infelizmente, jamais conseguiram sobreviver dada a severa pena imposta por um regime ditatorial”.
   O novo livro de Fernando Silva, recorda histórias incríveis, de como passavam as pessoas nesses recuados anos, onde a miséria se confundia com o remedeio e onde o grau de exigência não passava por outros valores que não fossem os que saciassem minimamente o apetite de cada um, isto obviamente, aqueles que trabalhavam no duro, sem escolaridade, viviam em casas  abarracadas e auferiam salários de miséria.
   A felicidade era grande, e eram dotados de um nível humano altíssimo, o que infelizmente hoje, tardiamente, vem sendo reparado pelos analistas, e que, francamente devido ao alto nível de exigência no consumo, levaram as pessoas equivalentes a esse estrato social a uma abastança que, sem se dar bem por isso, nos conduziu a todos a este estado de coisas, onde, de um país farto, com os cofres cheios de ouro, se obriga a estender a mão, quase como por caridade, aos donos da Europa, senhores do poder absoluto e do dinheiro que circula.
  Quais “Hitler’s” que gravitam e vivem de forma lauta, sugando com juros exagerados aqueles que se deixaram cair no logro.
   Mais uma pbra deste autor desconhecido que certamente irá entrar na gaveta à espera da Luz da publicação, tal qual outros trabalhos considerados pelo autor como importantes para o desnudar de uma região do nosso país e que foi duramente marcada, como foi a freguesia de Barcarena, nas primeiras décadas do século passado.
  Fernando Silva com 74 anos de idade, já não espera nenhum milagre mas apela para que, pelo menos as novas gerações se debrucem sobre os seus trabalhos, porque certamente aprenderão muito e talvez agora, nestes anos mais próximos seja uma verdadeira lição para poderem levar a cruz ao calvário, face a toda exigência, tanto corte, tanto exagero como se tem apresentado a Troika no nosso país.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Historial da Fábrica da Pólvora

OS BELGAS E O INSUCESSO DA SUA GERÊNCIA  DE VINTE E CINCO ANOS   
    A Fábrica da Pólvora foi durante os seus últimos anos de existência uma unidade fabril de futuro incerto, já que tanto a gerência belga, como as estatais que lhe seguiram, sempre estiveram repletas de boas intenções, mas indefinidas, acabando por saírem frustradas.
  Em Novembro de 1951, Armand Simon Jonet foi colocado na Direcção da fábrica que optara por mudança de nomenclatura, passando a chamar-se Companhia de Pólvoras e Munições de Barcarena.
   O Estado português arrendou aquela unidade fabril de fabrico de pólvoras negras a um grupo belga por vinte e cinco anos mas salvaguardou os interesses lusos ficando com 51 por cento do capital e cedendo 49 por cento à nova empresa que tinha como apoio financeiro o Banco Burnay .
   Na administração, entre muitos estrangeiros e portugueses foi escolhido para administrador principal residente, o Coronel José Mouzinho de Albuquerque, homem conceituado e respeitado, morador no Cacém, onde hoje se instalou a Consolata, instituição ligada a missões religiosas, homem muito orgulhoso da sua medalha de prata conquistada nos jogos olímpicos de Munique, pois era um exímio cavaleiro.
     As intenções da nova gerência era acabar de vez com o fabrico da pólvora negra e trocá-la por uma que fabricasse pólvora branca, idêntica à que se produzia na Bélgica chamada “Ball Powder”, que de imediato passou a ser importada para que a venda em Portugal se implantasse rapidamente.
   Os belgas, no entanto, reconheceram que a pólvora negra teria de continuar a fabricar-se em Barcarena por algum tempo mais, porque os consumidores não conhecendo o novo explosivo, próprio para armas de caça automáticas, não a comprariam e a fábrica teria de sobreviver.
   Havia um projecto para iniciar o fabrico em Portugal, pois a direcção tencionava montar a fábrica logo que a pólvora importada começasse a ser conhecida e sobretudo vendida, demais que a Fábrica de Moscavide, a INDEP começava a ser contestada por se encontrar dentro da povoação e causar muito perigo o que aconteceria em 1957, mas fechando de imediato devido a outros interesses.
  A grande verdade é que os portugueses consumidores das pólvoras negras, não abdicavam desta, pois conheciam bem os efeitos da velha Diamantina nº 1, nº 2 e 3, da Pólvora G e tantas outras mais fraquinhas, porque as suas armas eram antigas e não arriscavam a mudança com medo que as suas velhas armas, a maioria de cães, não aguentasse o impacto produzido pelo novo explosivo laminado.
     Logo aí os belgas começaram a ver que o sucesso não surgia com a rapidez desejada pois os estanqueiros espalhados por todo o país, experimentavam mas só os caçadores que já tinham adquirido armas modernas a experimentavam, mas francamente eram tão poucos que as vendas eram resumidas em relação às pólvoras de caça, negras.
   Também é verdade que a facturação baseava-se muito mais na venda de pólvoras para minas, pedreiras, como a grafitada e outras e como tal eram ainda o grande sustentáculo dos cerca de duzentos empregados que a fábrica possuía, pois o contrato obrigava a manter o pessoal existente, considerado do Estado, por ter sido admitido antes da Companhia de Pólvoras e Munições de Barcarena existir.
   O fabrico de artefactos para a marinha, socorros a náufragos e outros artigos de guerra, como granadas de mão defensivas, ofensivas, petardos de caminho de ferro, tudo isso completava a facturação, mas as vendas eram reduzidas, pois praticamente era o governo português o melhor cliente, que comprava esses produtos para treino das suas tropas, uma vez que a II Guerra Mundial tinha acabado à relativamente pouco tempo, mas corriam rumores de novos conflitos e era necessário manter os “stoks” em ordem para no caso de uma deflagração internacional, a fábrica pudesse corresponder de imediato.
    Mas a administração não desistia e teimava no sucesso da nova pólvora, porque os armeiros já vendiam essas novas armas e acreditava-se que ano menos ano a nova fábrica de pólvora branca pudesse surgir em força, já que existiam projectos para a mesma e como tal criou, dois anos depois em 1953, quadros laborais que na altura não eram muito necessários, como assistentes sociais, altos funcionários prospectores, e uma grande quantidade de servidores tomando em conta a ideia assente da construção da nova fábrica de fabrico de pólvora branca a M1 que servia bem os interesses dos belgas.
    Em 1957, foi construída a Fábrica de Pólvora M1 para a produção de pólvora de base simples (nitro celulose) que, acabaria por encerrar e entregue à Fábrica Nacional de Munições de Armas Ligeiras e isto por que a Guerra de África afigurava-se com boas perspectivas de fabrico de outros materiais, pois tinha sido construída a sexta secção que fora criada para o carregamento de granadas à base de trotil e tetril, por isso o número de empregados subiu aos seiscentos, com uma grande percentagem à base de mulheres.
   Entretanto tinha sido admitido o filho de um administrador, chamado Nuno de Lima, cuja família estava radicada em Angola em Novo Redondo.
   Este senhor mantinha várias roças em Angola, que produziam altas quantidades de café, entre outros produtos.
   Possuía também uma extensa frota de barcos de pesca que bastante rendiam à empresa angolana, mas ele, em vez de se manter na colónia à frente dos negócios, antevendo um conflito interno, preferiu Lisboa e como tal o pai arranjou-lhe aquele “tacho” para, não só, poder manter as suas brincadeiras, como entreter-se com qualquer coisa dentro da Fábrica da Pólvora que fosse da maior utilidade o que nunca aconteceu.
   Tudo parecia correr bem, demais que deflagrara a guerra de África e as ideias mudaram-se repentinamente pois a criação da fábrica de pólvora branca passou para segundo plano, optando-se por se fazer uma parceria com a Fundição de Oeiras e assim aconteceu.
 A Fundição de Oeiras construía as embalagens metálicas de diversos calibres de granadas e outro tipo de material bélico, entretanto Salazar enchia os barcos de militares para defender Angola, Moçambique e Guiné e era preciso abastecer essa gente para combater as forças revolucionárias ali existentes.
     Esta guerra que deflagrou em 1961 estava a causar um enorme descontentamento no seio da população portuguesa que via a sua juventude desaparecer aos poucos acabando por enfraquecer os serviços no continente, já que eram as mulheres e os idosos que se obrigaram a tomar conta desses serviços, especialmente agrícolas.
    A governação das possessões ultramarinas estava praticamente a ser coordenada pelos grandes senhores radicados em África, já que os ricos tinham adquirido a quase totalidade das grandes empresas africanas e obrigavam os negros a trabalhar a baixos salários e mesmo sabedores de que a escravatura já tinha sido abolida, a verdade é que toda aquela gente era tratada como que escravos fossem, sem regalias, trabalho duro de sol a sol e isso começou a revoltar o povo africano, obrigando-o a lutar por melhores dias, criando guerrilhas aqui e acolá e sobretudo para que lhes fosse dada a independência, que contrariava Salazar que via ali uma grande riqueza.
    Foi este grande negócio, a venda de material para África, que ainda ia mantendo a fábrica da pólvora de Barcarena, porque de resto, com as novas estruturas e renovados quadros de pessoal, a pensar único e simplesmente na mudança de fabrico de pólvora, certamente tudo iria dar em desastre financeiro, como acabaria por acontecer.
  Criaram-se vícios de laboração administrativa que pouco produziam. Todos os funcionários admitidos para os serviços administrativos, nada faziam, e a grande verdade é que, se não fosse o fabrico da pólvora negra que se mantinha fiel aos seus princípios, a fábrica, muitos dos meses não tinha dinheiro para pagar aos seus funcionários, já que os valores da facturação do carregamento de granadas chegava sempre muito tarde aos cofres de Barcarena, porque na realidade as três frentes de guerra em África que Salazar teimosamente mantinha, custava-lhe muito dinheiro, e como tal Barcarena, produzia aquele novo material mas para se manter, era a base dos seus antigos e obsoletos produtos, como era considerada a pólvora negra.
    Em 1974 quando acabaram as guerrilhas devido à revolução dos cravos, Barcarena veio a saber que tudo aquilo que produzia e embarcava para o ultramar e outros portos africanos e facturado em nome do governo alemão, destinava-se a servir as tropas rebeldes que acabavam por matar os nossos soldados.
  Isso foi descoberto por os grupos de defesa instalados em África quando avançavam com os seus giros dentro das densas selvas para manterem a ordem e combater os insurrectos negros, encontravam no chão embalagens vazias, abandonadas e já utilizadas que diziam ser fabrico “mad in Barcarena – Portugal”, concluiu-se então que Salazar vendia material aos alemães, para estes revenderem aos países aliados das tropas revolucionárias, por norma países que faziam fronteira com Angola, Moçambique e Guiné.
      O povo português e sobretudo os militares que lá tinham combatido sentiram uma grande revolta, mas a grande verdade é que o ditador já tinha falecido, e pouco ou mesmo nada se podia fazer, porque as ordens eram dele e posteriormente de Marcelo Caetano, só que este também já estava refugiado no Brasil e tudo ficou sem haver qualquer retaliação.
   Em 1976, uma vez terminada a guerra de África, a Companhia de Pólvoras e Munições de Barcarena deixou de existir, também porque tinha terminado o contrato estabelecido com o Estado português, e naquele quarto de século de laboração nunca conseguiram concretizar os seus intentos.
    A Fábrica M1 começou então a funcionar mas já com grandes dificuldades económicas, para produzir pólvora branca laminada, com a designação de Fábrica de Pólvora e Explosivos de Barcarena, nomenclatura que manteria a partir desse ano até ao seu encerramento.
        Entretanto nos anos sessenta, na fábrica de Barcarena as produções aumentaram consideravelmente, o material de guerra era produzido em força, com os trabalhadores a laborarem continuamente, pois chegou a haver trabalho dentro da fábrica 24 horas por dia, dividido em três turnos de oito horas, tal era o ritmo de saídas para o estrangeiro, pois todas as semanas iam dezenas de camionetas descarregar material bélico à Rocha de Conde de Óbidos com destino a África, e embora muito fosse para as nossas tropas, nunca se percebeu, que algumas das encomendas dirigiam-se a outros portos, pois eram aquelas que Salazar vendia ao governo Alemão, para abastecer os inimigos de Portugal.
      A admissão de pessoal terminou em Barcarena e todos quantos optavam sair, já não eram substituídos.
    Entretanto, alguns empregados antigos foram atirados para a reforma e do pessoal moderno, admitido pela gerência belga, parte dele optara por outras fábricas onde ganhavam mais, pois coincidiu com a instalação em Portugal das Multinacionais em Queluz de Baixo e assim, aos poucos a despesa em Barcarena foi diminuindo, mas continuava a ser a venda de pólvora negra que sustentava a fábrica de Barcarena alimentando ainda o sonho da nova gerência.
   Os directores foram mudando, pois saía um entrava outro que vinha com novas ideias, mas a grande verdade é que já não havia soluções para que a empresa se pudesse manter, fazendo-se todos os meses uma grande ginástica financeira para se arranjar o dinheiro para os salários e vencimentos.
   Com o passar dos anos, a fábrica via os seus sonhos esfumarem-se pois aquilo que a direcção pretendia ver desenvolver-se, a venda de pólvora branca, mantinha um ritmo baixo, constatando os seus responsáveis, que não valia a pena insistir naquela nova linha de fabrico com aquele novo tipo de pólvora e o definhamento foi aparecendo aos poucos, mas os empregados superiores, esses foram-se mantendo, sem nada fazerem, sem nada produzirem.
    Ainda, no tempo da companhia de Pólvoras e Munições de Barcarena chegou-se a pensar no carregamento de cartuchos de caça, com a nova pólvora belga importada, mas a negligência foi de tal ordem, que os cartuchos depois de carregados, ficavam mais caros que aqueles que se vendiam na concorrência.
     Nuno de Lima, o filho do administrador, que nunca fez nada dentro da fábrica senão pensar nas suas brincadeiras com o seu potente “Corvert”, carro de turismo e divertimentos com algumas funcionárias, mantendo um ritmo de reuniões com grupos femininos em locais recatados da fábrica, como a sala de reuniões da administração depois das horas laborais, ainda pensou nessa fábrica de cartuchos, mas também tudo se esfumou ao constatar os resultados.
     Este homem ainda pensou na criação de uma linha de montagem e carregamento de cartuchos de caça numa velha oficina da 5ª secção, onde se fabricavam artigos para a marinha, mas as contas foram mal feitas, pois para carregar cartuchos era preciso um engenheiro responsável, um mestre para dirigir o pessoal, um chefe de grupo e apenas dois funcionários, acrescido do vencimento dele próprio, que era elevado.
     O vencimento destes, somado com mais os encargos da verdadeira fabricação e carregamento dos cartuchos de caça, tornava o produto acabado incomportável, pelo que teve de acabar passado pouco mais de um mês de iniciada essa experiência.
    Um insucesso, que juntamente com o verificado com a ideia de se fabricar pólvora branca, acabaria por levar a gerência belga a um enfraquecimento, que viria a acabar de vez com uma infeliz tragédia, em 30 de Novembro de 1972 que deu origem à morte de seis operários polvoristas na secção de pólvoras.
     A tragédia abalou o pessoal fabril e demais que a inspecção que regulava este tipo de fabricos, optou por não aprovar as obras de recuperação do edifício sinistrado, por considerar a fábrica da pólvora muito obsoleta, com máquinas do tempo ainda do princípio do século e assim naquele fatídico dia, a oficina da Fonte Caiada explodira pela última vez, a mesma ficou condenada ao seu encerramento, assim, como todas as outras, passando a fábrica a viver dos “stoks” que ainda possuía que acabaram por esgotar facilmente, e a venda de artifícios e material de guerra para as nossas tropas, e marinha mercante o que na realidade era bastante fraco, mas mesmo assim ainda conseguiu durar mais quatro anos, já com pouco pessoal e na sua maioria completamente desmotivado para poder arranjar ideias que pudessem dar outra vida e ânimo aquela unidade fabril, mas a explosão de 1972 acabaria por ser o golpe de misericórdia na Companhia de Pólvoras e Munições de Barcarena.
   A Fábrica que existiu durante cerca de quatrocentos e quarenta e oito anos, tomando em consideração os anos que laborou de forma artesanal e descoordenada, só a partir de 1729, com o aparecimento da Real Fábrica da Pólvora de Barcarena tomou um cariz sério, organizado e coordenado, com a entrada de António Cremer que transformaria por completo os sistemas de produção e de segurança daquela importante unidade fabril portuguesa.
   Em 1995 a Câmara Municipal de Oeiras adquiriu as instalações da Fábrica da Pólvora por dois milhões de escudos, transformando-a num complexo aberto a todos e em 1998, foram então instalados alguns serviços da CMO, entre eles ao criação do Museu da Pólvora Negra, assim como outras benesses naquele espaço de 44 hectares com actividades culturais, lazer e divertimento o que agradou a toda a gente.
     A gerência belga que pretendia transformar o obsoleto numa unidade de fabrico moderna e rentável, duraria apenas o tempo que constava no contrato de arrendamento, 25 anos, mas sempre envolvida em insucessos, frustrações e planeamentos errados, pese embora tivesse sido atraiçoada por mais uma das irreverências de António Oliveira Salazar, que se por um lado foi letal para a juventude portuguesa, ainda foi o balão de oxigénio dos belgas que assim foram protelando o definhamento e desmantelamento dos seus ambiciosos projectos, mas o desastre de 1972 atiraria com todos os seus sonhos para um abismo sem hipóteses de recuperação.
  Mas a grande verdade é que mesmo as gerências estatais que lhe sucederam, melhor não conseguiram fazer e hoje há uma grande felicidade por vermos aquele espaço, onde a morte andou sempre por perto, criando dor e luto, transformado num local onde reina a alegria, a diversão, a cultura e o lazer, recebendo milhares de visitantes por ano.
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domingo, 2 de setembro de 2012

Uma passgem pelo passado

OS CASAIS AGRÍCOLAS NA REGIÃO DE BARCARENA


    Antes da freguesia de Barcarena, ter sido constituída em 1835, já toda a região possuía os sus casais agrícolas, pois os núcleos habitacionais eram reduzidos e pelas serranias, vales e lezírias, misturados com as grandes searas, existiam os Casais, que, albergavam, para além das famílias que neles viviam, o pessoal contratado para o amanho das terras, neste caso particular, o ciclo do trigo, que era bastante em ambas as margens da Ribeira de Barcarena.
   Conhecemos assim alguns casais mais contemporâneos, mas a verdade é que esse tipo de habitação, armazém e celeiro, já vinha dos tempos remotos em que toda a região se regia por clãs, uma vez que há conhecimento de que, já no século XIII, se produziam cereais, e produtos hortícolas, pois toda a vasta área, hoje Tercena, era uma “Herdade” ocupada pelos “Homens de Torgena” que, obviamente, se dedicava à agricultura.
  Com a criação da fábrica da pólvora, os casais predominaram mais na área norte da freguesia, bastante deserta e só por volta do século XIX é instalada uma mais rígida atenção à área agrícola.
   Todo o movimento local passou a ser mais bem controlado pela Junta da Paróquia de S. Pedro de Barcarena, mas a partir de 1836 com a constituição do primeiro executivo da Junta, esta ficou responsável pela divisão administrativa e as paróquias com os seus registos e determinações de índole religiosa.
   O primeiro executivo foi entregue ao presidente José de Avellar e como membros do executivo, Joaquim Rebello, José Maria Sinel de Cordes e João Dias Alces Franco.   
    Entretanto o Morgado de Barcarena já vinha abarcando muitas terras arrendadas a rendeiros e foreiros, só que os terrenos mais importantes pertenciam a quintas, que assim pagavam as rendas e impostos, norma que prevaleceu até quase aos nossos dias.
   A verdade é que no século XX conhecemos diversos casais, que mantinham a sua actividade durante todo o ano, embora com maior ritmo de Abril a Julho, pois era quando os trabalhadores os invadiam, primeiro parta as mondas, depois para as animadas ceifas e finalmente para a fase final do ciclo, que consistia nas debulhas, arrumos e limpeza dos armazéns anexos aos casais.
  Os seus donos cobravam uma renda para rendeiros mais pobres os trabalharem e assim apareceram vários casais que regulavam determinadas áreas de terrenos de cultivo, sendo o de Cabanas, o que mais movimento possuía.
   Cabanas, que se localizava ao cimo das terras do lugar do Bico, albergava sempre um grande número de trabalhadores, por norma mais de meia centena de mulheres e homens, que ali chegavam vindos de todas as partes do pais, mas com maior força do Oeste.
  Eram transportados nos comboios que chegavam à estação do Cacém e depois caminhavam a pé, ou nas carroças e galeras para os casais onde eram colocados.
  Cabanas mantinha uma tradição muito grande nesta actividade e foi o último casal a deixar essa vida agrícola, depois de todos os terrenos circundantes terem sido vendidos para a construção de urbanizações, só que, por sorte, os mais importantes em redor do grande casal, foram adquiridos pela Câmara Municipal de Oeiras, onde determinou ali instalar um campo de golfe e portanto manter-se ainda hoje uma longa faixa de viço verde.
    Mais ao lado existia, o casal de S. Miguel da Serra pertencente à família de Álvaro Brée de Barcarena, que igualmente albergava muita gente, pois no princípio do século passado, o Casal chegou a juntar ali, reconheça-se em condições precárias, cerca de cem pessoas a viver, todas elas dependentes do trabalho que ali se gerava em torno dos campos agrícolas.
   Até uma capela ali fora concebida, dedicada, obviamente, a S. Miguel, só que, aos poucos a vida agrícola foi baixando a ponto de se extinguir por completo, as casas foram tombando com a influência do tempo e também por demolição propositada e hoje não se consegue distinguir esse antigo bairro, tendo prevalecido até aos nossos dias, apenas e curiosamente, uma das figueiras que ali existiam e que, dava figos suficientes para matar a fome a muita gente necessitada e que na verdade, deles dependia.
   Os últimos barracões ali existentes deverão ter caído de vez nos anos sessenta, pois albergavam o gado do pastor Vítor filho dum lavrador bem conhecido, o “Álvaro da Pinta” que tinha o seu quartel - general montado à entrada de Barcarena, na descida do Sobreiro, o que ainda hoje se pode  ver, mas  completamente desmantelado.
    O Casal do “Álvaro da Pinta” era outro dos casais existentes na região, que no seu tempo recebia igualmente pessoal para o trabalho do campo, mas em menor número que o de Cabanas, no entanto fez vida albergando mulheres e homens, durante muitos anos.
    Mais a baixo, existia o casal agrícola do Sobreiro, que prevaleceu muitos anos como local agrícola, pertencente a Álvaro de Brèe, mas depois de ficar separado da sua luxuosa propriedade à entrada de Barcarena, devido a estrada entre o Cacém e Caxias os separar, foi vendido e hoje está transformado em moradia de uma família, encontrando-se em excelente estado de conservação. 
  Em Queluz de Baixo existia o casal do Barroca, mesmo dentro da povoação, colado à propriedade, onde viveram os médicos da corte, quando esta se instalava no Palácio Nacional de Queluz, denominada “Palácio Restani”, hoje em ruínas, mas do casal do Barroca, nem uma pedra lá se encontra.
     No centro de Tercena, existiam cinco casais que marcaram esta época áurea dos anos trinta a meados dos anos sessenta do século passado.
    A norte, era conhecido o Casal do Crispim, onde a família vivia do campo, pois estava encarregado de fabricar todas as terras circundantes, que pertenciam à família Canas, com o velho Javardo, figura típica da terra, a tomar conta e bem, desta actividade.
    O Javardo contratava famílias sérias e trabalhadoras para cuidarem das suas terras e depois, no final da época era-lhes pago o seu trabalho com parte das colheitas.
  Quase ao lado, estava o Casal de Manuel Roque, com os seus velhos armazéns, mesmo ao lado da grande eira, onde mais tarde, por a actividade ter findado, se ter enchido de famílias que da província chegavam procurando nos arredores da capital melhores dias e sobretudo casa barata.
  Mais abaixo existia, o casal do Conde da Azaruzinha, adquirido posteriormente pelos Canas, família de Porto Salvo que foi dirigido por um elemento da família dos Guizos de Massamá.
 O Alfredo e o António eram irmãos e davam-se muito mal, contudo viviam da agricultura, mas numa escala muito reduzida.
      Mais ao lado ficava o casal do António e talvez por estarem perto uma da outra, as cunhadas davam-se muito mal, envolvidas quase sempre em discussão, por isto e por aquilo, mas os irmãos, embora nunca tivessem tido um bom relacionamento um com o outro, iam fazendo a sua vida, criando as suas eiras mesmo ao lado do edifício onde viviam.
    Dentro da rua principal de Tercena conhecíamos o Casal do Tapiço, que, apenas vivia da criação de gado, pois mantinha sempre um bom número de vacas, animais que sustentavam a numerosa família, já que era composta por mulher e mais seis filhos.
   Mesmo no fim da localidade encontrávamos o Casal do João de Peles que igualmente se governava com a criação de ovelhas, possuindo um grande número de terrenos que apenas serviam para alimentar os seus animais.
  Os casais foram desaparecendo, ou ficando em ruínas com a grande expansão demográfica verificada a partir dos anos sessenta e a região que era uma das melhores para criação se trigo, já o garantia o Marquês de Pombal, ficou abandonada, por falta de terrenos de amanho, já que quase todos eles, foram dedicados à construção de grandes bairros, que ainda hoje prevalecem, e uma das grandes perdas para além dos cereais que ali se criavam, foi a extinção completa das espécies cinegéticas, pois as terras de Cabanas eram uma das zonas mais procuradas pelos caçadores, onde abundavam lebres, coelhos, perdizes e todas as espécies de arribação que no Inverno invadiam todos estes terrenos agrícolas, tornando a região numa área de caça muito apetecível.

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quinta-feira, 26 de julho de 2012

“AVIEIROS” ESTÃO DE VOLTA, MAS AS “MACANITAS" NÂO
      Já se passaram muitos anos que as “Macanitas”, essas jovens raparigas de rosto tostado mas bonito, brejeiras, de ar alegre e jovial, desapareceram da região de Barcarena.
  A grande maioria desembarcava na estação do Cacém, carregada de caixas, sacos, esperança a rodos e sonhos em quantidade no bornal, já que em suas terras pouco se ganhava, onde viam pais, avós e conterrâneos agarrados à frieza de seus lares perecendo sem dó nem piedade, à fome, numa miséria intolerável, por isso, os mais novos, antecipando-se a esse anunciado e real holocausto, fugiam, aldeia fora, em busca de nova vida.
   Umas encontravam-na, outras nem tanto, mas a verdade é que os extensos terrenos da região que o grande Marquês de Pombal garantia serem os mais férteis da Europa para o cultivo do trigo, lhes proporcionava uma vida mais agradável e então, por cá arranjavam os seus namoricos, casavam-se e iniciavam uma vida nova, como a mulher do “Vítor das ovelhas”, a Rosa, esposa do “Fonte Santa” e tantas outras que sentiram uma grande felicidade por estas paragens, e felizmente ainda hoje vivas.
       Mulheres bem conhecedoras do que fora a amargura desses terríveis tempos, debruçadas de sol a sol sobre o trigal que ondulava com a força do vento, estendendo-se pela encosta a cima desde o Bico ao casal de Cabanas e onde o frio as enregelava desde os pés aos cabelos.
    Sobreviveram e hoje apenas lamentam os anos se terem passado céleres, mas felizes por terem arranjado a sua família e com ela viverem alegremente, agarradas aos netos, aos filhos nos seus confortáveis lares, completamente remodelados e repletos de condições, o que antigamente não tinham, já que viviam temporariamente em barracões desconformes, frios e com camas improvisadas com toscas tábuas e modestas e desconfortáveis esteiras feitas de juncos entrelaçados.
    Tudo isso, já passou e desse tempo apenas resta a saudade de terem sido jovens, porque o demais, que o diabo o leve para bem longe, contudo é com desgosto que vemos todos esses espaços, onde o pão nascia verde, cheio de esperança e depressa se transformava em douradas espigas que depois de moídas alimentavam as pessoas, desaparecerem da nossa bem transformada região.
    Hoje esse pão é feito de espigas oriundas de países distantes e no seu lugar, constatamos que o cimento inundou desmedidamente toda a região e que saudades isso nos causa, por sabermos que esse mesmo pão que alimenta a sociedade, não ser proveniente do nosso Portugal, mas sim de países que, nada nos diz, pois bem ao invés, deles chega gente sem força para se manter e se arrasta miseravelmente pelas ruas das nossas cidades.
   Envolta nessas bagas, aparece uma mão de obra sem qualidade, de estômagos esfomeados, cabeças transformadas com culturas esquisitas, religiões estranhas e pouco convincentes com a normalidade ocidental que acabam por, precocemente descaracterizar a nossa sociedade, retirando-lhes a humanização, a confiança, devido às suas atitudes insólitas para poderem sobreviver face ao insucesso, matando, assaltando, criando actos de vandalismo e causando os mais desagradáveis incidentes, que até se ajustam com o amargo desse pão que nos alimenta.
    Bem ao invés, o regresso dessas mulheres, conhecidas pelas “macanitas” às nossas terras jamais se verificou, culpa da enorme expansão demográfica dos arrabaldes da grande capital, e os verdes campos foram-se transformando em cimento, betão e mais betão, que nos vai atrofiando, retirando o ar respirável que nos faz viver, o sossego que desejaríamos, a liberdade, a segurança dos nossos filhos, a confiança no nosso semelhante e sobretudo a tranquilidade da vida após o honesto e duro trabalho.
    Isso hoje fugiu para bem longe, as “macanitas” não passam de uma bonita lenda, cantada e difundida pelos saudosistas, pelos historiadores, pelos grupos etno-folclóricos e por todos aqueles que parecem nunca ter concordado verdadeiramente com esse acelerado progresso, que acabou por nos infernizar numa vida sem tréguas, onde o mal sempre nos espreita.
     Ao invés de outras actividades, parecem agora florescer, e renascerem das entranhas dos lodos do Tejo, das velhas e famosas histórias de Alves Redol que tanto se dedicou aos seus “Avieiros”, aos seus “Gaibéus” e a outros povos que migraram no nosso país, como que de ciganos se tratassem e que encheram de vida e história as margens ribeirinhas do famoso rio, vindo de Espanha.
    Afinal diziam os antigos que “de Espanha nem bom vento, nem bom casamento”, mas de lá vêm as águas que dão fama, vida e sustentabilidade a esses modestos, mas dedicados pescadores que invadiram Vila Franca de Xira, Santarém e todas essas margens ribeirinhas, vindos de Vieira, e de tantos outros lugares onde o oceano espraiava na branca areia, só que as suas bravas e gigantescas ondas causavam grandes danos aos humanos que delas dependiam.
     Os “Avieiros” estão de volta às suas origens, parecendo não prescindirem do rio, pese embora todas as modificações da nossa sociedade, mas a verdade é que ele não se alterou, não se expandiu demograficamente, as águas lá estão, os caniços continuam a crescer nas suas margens, os lodos e o pescado continua a abundar e agora mais do que nunca, só os varinos, as canoas e as fragatas foram encalhando nos cais lamacentos das margens opostas à grande capital, nesses esteiros onde a sucata vai envelhecendo e entupindo esses braços do Tejo inertes, tornado lar das mais variadas espécies de peixe miúdo.
    Afinal aquilo que os fazia viver tão sacrificadamente mas de forma modesta, por seus valores serem irrisórios, hoje as lampreias, as enguias, as fataças, os sáveis e tantas outras espécies piscatórias, subiram os seus valores nas bancas dos mercados.
     Voltaram a ter procura e cotação enormes e isso pareceu-lhes ser motivo de um oportuno regresso, mesmo sabedores de que muitos estiveram largas temporadas em países ricos, conseguindo os seus pecúlios, mas o Tejo é sempre novo, como dizia José Viana na sua famosa canção do “Cacilheiro”.
    A Palhota, as Caneiras, localidades ribeirinhas voltaram a ter vida, Vieira de Leiria veio de novo às suas lembranças do passado de onde muitos saíram fugidos da agrura do mar, onde nem sempre podiam pescar, e agora de novo no seu Tejo, parecem felizes, porque ele foi o seu berço, o seu braço direito, o seu ganha pão e este regresso, mais que desejado, vai ser o maior lenitivo para o fim de suas vidas, pois pretendem terminá-las tal qual como os seus progenitores e avós.
     As “macanitas”, essas não regressaram. Deixaram-se ficar nas suas modestas e pacatas aldeias e esta região, onde tantos anos estiveram, aparece hoje transformada em mil e uma cidades.
    Para aqui migraram nos anos trinta e quarenta, só que os lugares e aldeias acabaram por se encher de betão, de gente insensível vinda de todas as partes do mundo, ignorando as tradições do seu povo, os hábitos salutares do passado, dos bailes e festas de rua que davam muita alegria e animação às suas gentes, das searas que jamais brotaram as louras espigas, dos moinhos que apodreceram as suas alvas velas e se deixaram esmoronar com a agrura e o passar do tempo, dos engenhos cerealíferos que enferrujaram à beira rio, dos campos alegres bem repletos de chilreante passarada que desaparecera por completo, bem ao invés do sempre novo e fértil Tejo que não pára de brotar sua grande riqueza.
     Não foi bem isso que motivara os felizes regressados “Avieiros”, mas sim a beleza do seu querido e saudoso Tejo e sobretudo as gratas, apesar de tudo, recordações desses tempos recuados que sempre encheram de satisfação todos aqueles que nele passaram privações, criaram os seus rebentos e passavam longas horas do dia e noite dentro das modestas e desconfortáveis bateiras, mas que a todo o custo conseguiram sobreviver.
     Hoje, vogam nelas recuperadas, puxando redes com as suas já "descalejadas" mãos, em busca apenas de uma forma eficaz de melhor passarem os seus últimos anos de vida, conscientes de que estão a lembrar velhos e difíceis tempos, mas mostrar também aos mais novos, sobretudo os que gritam desolados, atingidos pelo desemprego, de que, o Tejo é sempre novo e continua a fornecer riqueza e saudável sustento a quem assim o desejar, só que as “macanitas”, essas não têm para onde regressar, mesmo que esse fosse o seu ardente e saudoso desejo. Os extensos trigais por aqui existentes, acabaram por secar com o exagero do cimento e a especulação imobiliária.
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quarta-feira, 11 de julho de 2012

MANUEL VAZ E O ANALFABETISMO NA FÁBRICA DA PÓLVORA DE BARCARENA
    Tem-se falado muito pouco do professor Manuel Vaz, patrono da Escola Primária de Barcarena, que de momento foi extinta, por falta de alunos, facto que nos deixa admirados uma vez que a sede da freguesia tem vindo a aumentar o número de habitantes de ano para ano.
    No entanto Manuel Vaz, não foi pelo facto de ter dado o seu nome à Escola Primária de Barcarena, onde durante tantos anos deu aulas, que perdera o seu prestígio, como pessoa, oficial de registo na freguesia de Barcarena e professor.
     Manuel Vaz foi aluno da Casa Pia onde estudou e mais tarde ali ministrou aulas, sendo mesmo considerado um grande mestre casapiano, tendo ainda o mérito de transformar analfabetos em pessoas letradas que acabariam por sentir melhorias em suas vidas, graças à sua profícua e pedagógica acção.
  O professor nos anos quarenta do século passado, deu aulas a uma série de trabalhadores da Fábrica da Pólvora de Barcarena, gente com mais de trinta e quarenta anos de idade, pois nesse tempo a escola não era obrigatória e muitos até nem a frequentavam porque se obrigavam a trabalhar no duro campo desde muito novos, pagos sempre com magros salários, ou então na Fábrica da Pólvora que, para admitir gente para o seu serviço laboral não exigia escolaridade a ninguém depois do início da segunda Guerra Mundial.
   Assim apareceu uma série de empregados que nunca tinha andado na escola, mas no entanto nos seus serviço de polvoristas não passavam da categoria de serventes, porque na realidade para ascenderem a outros postos, como ajudantes ou mesmo operários, obrigavam-se, pelo menos a saber ler e escrever e a grande maioria não estava habilitada, daí que era mesmo impossível ganharem mais dinheiro, muito embora fossem reconhecidos pelos mestres terem habilitações profissionais para poderem subir de posto.
     Foi por estas razões que Filinto Silva, grande defensor do operariado barcarenense, compreendeu essa dificuldade nos seus amigos e indefesos trabalhadores, pois diariamente era assediado pelos empregados, para os informar o que deveriam fazer para poderem subir de posto na fábrica, uma vez que, alguns até já exerciam serviços de responsabilidade, à revelia dos mestres apenas protegidos pelos chefes de grupo e operários antigos que os deixavam fazer por reconhecerem neles habilitações para tal.
    Por estas razões mais que injustas, pois não tinham a culpa das grandes desatenções de Oliveira Salazar, que não exigia essa obrigatoriedade escolar, que Filinto Silva se lembrou de propor à direcção da Fábrica a criação de um curso primário para esses funcionários, afirmando mesmo que era apenas a burocracia que inibia essa gente de subir de posto no seu emprego e obviamente passarem a auferir ordenados mais elevados porque o serviço já vinha a ser feito há muito tempo e com reconhecida capacidade.
  A direcção da Fábrica aprovou a ideia e o grande defensor dos trabalhadores fabris, lembrou-se de convidar o professor Manuel Vaz, seu vizinho e amigo, para dirigir esse curso nas instalações do Grupo Recreativo de Tercena, que tinha criado, recentemente um posto escolar na sua nova sede social inaugurada em 1938.
   Aquele local vago na colectividade destinava-se a uma extensão dos bombeiros indicada e subsidiada pelo grande benemérito Álvaro Vilela, administrador do Banco Espírito Santo, mas como essa ideia causara uma grande polémica junto dos Bombeiros de Barcarena, o comendador, que tinha dado uma grande ajuda para a construção do edifício, determinou então que aquele novo espaço se destinaria à escola primária, o que a Câmara Municipal de Oeiras de imediato aproveitou já que o ensino escolar em Tercena, andava de casa em casa e sem as mínimas condições.
  Naquele novo espaço tudo era diferente, pois havia condições, vestiário, casas de banho e assim começou a funcionar em 1945 e foi para essa escola que os funcionários da Fábrica da Pólvora se dirigiam depois das cinco horas, após as crianças saírem da aula, para aprenderem a ler sob a bitola do grande professor Manuel Vaz.
    Foi estabelecido um curso acelerado, pois era necessário por aquela gente a ler o mais rapidamente possível e durante quatro anos, o tempo que demorou aquela notável iniciativa, os funcionários da Fábrica da Pólvora viram o seu problema resolvido, embora de dois em dois anos, saíssem funcionários com a quarta classe feita, e assim foram muitos que durante aquele tempo aproveitaram, estudaram, aprenderam a ler e escrever e ao cabo de dois anos tinham o tão desejado diploma da quarta classe na mão.
    Foi extraordinária a acção de Manuel Vaz, pois se muitos eram de difícil compreensão, a grande maioria aprendeu facilmente, e foi assim que em cursos de dois anos, os trabalhadores conseguiram o seu diploma que, de imediato, entregues na Fábrica, viam os seus ordenados aumentados.
    Depois de prestarem provas de capacidade profissional, os serventes ascendiam à categoria de ajudantes ou operários, mediante as provas dadas ao Mestre Instrutor Francisco Assis Mafra, que coordenava o serviço de pólvoras da Fábrica de Barcarena.
    Muito antes da guerra de Espanha, nos anos trinta, ninguém entrava para o serviço de pólvoras sem dar provas cabais de saber lidar com o explosivo e os cursos ministrados eram exigentes distinguindo-se nessa época, Pedro Barreiros, vulgarmente conhecido pelo “Pedro da Rosa”, que foi considerado o mais completo operário polvorista, gabado por toda a gente, mas depois, por questões políticas, foi obrigado a abandonar a fábrica e perder o seu emprego o que bastante o prejudicou.
   Na escola de Tercena recordamos pessoas da terra, como o Merciano Luís Dias, conhecido pelo “Sete” que ali aprendeu a ler e passou de imediato a operário, acabando por sua infelicidade, morrer em 1956 numa explosão.
     O Emídio da Mira, o Armando da Rosa, o Garibaldi e tantos outros homens que ali estudaram viram as suas vidas melhoradas, pois ganhavam vinte e oito escudos por dia e logo depois de terem apresentado o diploma escolar, passaram a ganhar muito mais.
   Assim, os ajudantes passaram a receber trinta e oito escudos e os operários quarenta e oito o que era um aumento significativo, e desta forma muitos viram suas vidas bastante melhoradas.
   Manuel Vaz foi considerado um santo para toda essa gente, porque se não fossem as suas aulas, esses funcionários analfabetos jamais veriam mudanças em suas vidas, porque a partir dessa altura, só entrava para a Fábrica gente com um mínimo escolar, nesse tempo, 3ª classe, mas com o passar dos anos o grau de exigência foi aumentando e os trabalhadores antigos, já com muitos anos de casa, não tinham possibilidades de estudar, uma vez que não existiam cursos nocturnos para eles frequentarem e isso, na realidade muito se ficou a dever a Filinto Silva que era funcionário superior da Fábrica da Pólvora e um grande amigo de toda essa desprotegida classe operária.
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quinta-feira, 28 de junho de 2012

BAIRRO DA FERRARIA
 UM EXEMPLO DE BAIRRO COMUNITÁRIO
    Este bairro criado no início do século passado, existente na Fábrica da Pólvora de Barcarena, foi considerado um exemplo de comunidade social feliz e humana, onde viveram em conjunto cerca de uma centena de pessoas, que vingou apesar das muitas carências impostas pelo regime salazarista, apenas no sentido de manterem o pão de cada dia ganho naquele verdadeiro degredo.
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     Quando se fala da Fábrica da Pólvora quase toda a gente que ali trabalhou garante que foram tempos maus, sem alegria pois andavam sempre os trabalhadores agarrados ao espectro das explosões, temendo pela sua vida.
    É verdade que essa ideia ocorria de quando em quando, mas a grande realidade é que se passavam muitos meses que essa ideia não aparecia, porque apesar de temerosa, aquela unidade fabril tinha épocas em que as pessoas viviam alegres, motivadas e sobretudo muito unidas.
     A união e fraternidade foram sempre as grandes características dos trabalhadores fabris, pois
A antiga rua dos Polvoristas hoje modificada e arranjada
 comungavam todos da mesma ideia, havendo consenso no entendimento, vivendo todos abrangidos pelo mesmo estatuto social, tendo como base a pobreza é certo e como tal, mais não podiam fazer que estimarem-se uns aos outros e viverem em conjunto da forma mais pragmática, embora reconhecidamente de modo modesto e por vezes mesmo muito difícil, devido às exigências e castigos impostos pelo Estado Novo que dominava o país.
     Havia grande entreajuda nessa gente que habitava o bairro da Ferraria na Fábrica da Pólvora, composto pelas três artérias ali existentes, Rua dos Sargentos, Rua dos Polvoristas e a Calçada do Louro, uma zona que existia para lá da ponte metálica sobre o ribeiro, onde não podia chegar uma viatura, mas onde morava a maioria dos empregados daquela fábrica.
     Chegamos a contar mais de uma centena de pessoas que nesse bairro vivia e toda esta comunidade nos dias
Calçada do Louro com o caminho arranjado o que não estava antigamente
livres divertia-se, organizava-se e sobretudo apoiava-se uns aos outros, pois se um tinha necessidade disto ou daquilo, logo aparecia alguém que os remediava, por isso, foi sempre considerado um verdadeiro exemplo a vivência entre as pessoas moradoras nesse já extinto bairro da Fábrica da Pólvora.
   Mas se custa a acreditar, quem conhece aquele espaço hoje, que ali pudesse viver alguém, a grande verdade é que apesar de termos conhecido uma centena de pessoas a habitar ali, ninguém vivia em barracas, a exemplo do que conhecemos em Paris, no chamado “bidonville”, pois toda a gente morava dentro de casa de alvenaria e não em barracas feitas com toscas madeiras e cobertas a chapa de bidões velhos, verdadeiros fornos no verão e geladeiras no Inverno.
   Eram casas, na sua grande maioria, construídas a tijolo, com divisões exteriores feitas em pedra tosca é certo, mas bem arranjadas, muitas possuindo até canteiros com alegres flores, mas os acessos, esses eram de facto horríveis, pois para lá da ponte metálica, o caminho era tosco, de pedra solta, tipo carril, onde uma pessoa custava a passar, mas era obrigatório enfrentá-lo, porque a meio ficava o chafariz, denominado “A Fonte dos Passarinhos”, água vinda de uma nascente existente a meio da montanha onde a passarada saciava a sede, que possuía sempre água fresca e como não havia ainda fornecimentos ao domicílios, era obrigatório consumi-la.
 Neste parco espaço ainda existiam locais destinados à agricultura, pois quase todas as famílias possuíam uma pequena horta, o grande sustentáculo das famílias, pois sempre colhiam anualmente legumes, base da alimentação de toda aquela pobre, mas feliz gente.
  A boa disposição era tal e a felicidade tão grande, que na época dos santos populares organizavam alegres festejos, onde não faltavam as quermesses, o bar com vinhos e bons petiscos, animados bailaricos, juntando dinheiro para mais tarde, poderem organizar excursões e foi assim que muitos conheceram grande parte do país, pois o Leonel Albino, que morava mesmo no cimo do bairro, numa bem arranjada moradia pertencente ao António Louro, organizava com mestria, pois nessa época podia considerar-se a pessoa com mais conhecimentos que ali vivia, qual chefe da “Clã Ferraria”, pese embora todos os restantes fossem pessoas habilitadas nos seus trabalhos, e ganhando parcos ordenados, mas suficientes para viverem regularmente com as suas pouco exigentes famílias.
   Nasceram no bairro, enquanto funcionou, dezenas de crianças que mais tarde acabaram por ocupar o lugar
Rua dos Polvoristas hoje completamente arranjada
 dos pais, mas a grande maioria zarpou para os lugares da freguesia, onde as casas eram diferentes, mais amplas e sobretudo reunindo melhores condições de vivência.
   No seio daquele bairro, fazendo fronteira com o ribeiro, existia a vivenda das “Pipis”, assim era conhecida por nela viver uma família composta por seis pessoas, sendo que duas das raparigas eram gémeas, sempre muito bem vestidas, e terem a particularidade de serem muito bonitas.
  Apesar de pertencerem a um estrato social superior, aquela família sempre se deu bem com os seus vizinhos, porta com porta, e como tal, quase utilizava o mesmo modelo de vivência, só que a quinta possuía grandes recursos e isso era fundamental para a comunidade e uma mais valia que muito ajudava quem vivia por ali perto.
  Também no outro lado do tosco caminho, existia a horta do António Louro que, pelo enorme espaço que ocupava junto ao ribeiro era um local onde todos os legumes se davam e o Louro, pessoa muito aberta, divertida e amiga dos seus vizinhos, repartia com todos parte dos produtos que ali criava, uma vez que o terreno era da Fábrica da Pólvora e ele apenas dava a sua mão de obra para poder criar toda a gama de legumes e frutos.
  Naquela época eram as hortas, as capoeiras com galinhas, coelhos e outros animais, como as vacas que o Eduardo do Albano chegou a criar, sustentadas com os restos de comida, que ajudavam aquelas famílias, pois até porcos ali se criaram e na altura da matança, fossem de quem fossem, havia sempre um naco de carne para distribuir irmãmente pelos vizinhos, amigos e sobretudo por aqueles que ajudavam a criá-los, nas suas horas de descanso. 
    Para dar apoio a toda esta gente, existia, mesmo construído quase no leito do ribeiro, uma casa feita em madeira, assente numa base sólida de betão, mas reunindo excelentes condições, que já vinha do tempo das guardas militares que ali funcionaram no início do século e que guardavam a Fábrica Militar, que mais tarde se transformaria num estabelecimento comercial.
  Após os militares deixarem a fábrica e a mesma ter passado a ser guardada por guardas criados pela própria unidade fabril, nomeadamente nos anos quarenta, aquele casarão foi transformado em casa de pasto, taberna e mercearia, alugada pela Rosa do General, casada com um homem que era pedreiro, e possuía aquela alcunha sem nunca ter sido militar, só que nutria muito jeito para o comércio.
    Era aquele espaço o local de encontro, principalmente
Rua dos Polvoristas tal qual como era antigamente, desenho de Fernando Silva
 dos homens, já que as mulheres, por vezes em recurso, abasteciam-se ali de alguns géneros, porque de resto forneciam-se nos lugares e mercearias das localidades vizinhas, como Tercena e Barcarena, muito especialmente na cooperativa do pessoal operário da Fábrica da Pólvora.
    E com estas benesses, a boa disposição de todos e sobretudo a grande unidade entre os moradores, fizeram daquele bairro um local de referência e um verdadeiro exemplo de como se pode viver feliz, com parcas condições, mas dotados de uma grande unidade, espírito altruísta e muito humanismo.
    As pessoas foram morrendo, outras melhorando as suas vidas, mudando-se para outras localidades com o passar dos anos e no início dos anos cinquenta o bairro já estava completamente transformado, com parte das casas demolidas até que em 1951, com a aquisição da fábrica por parte duma companhia belga, tudo ficou a degradar-se, acabando por vir a ser tudo destruído quando a Câmara Municipal de Oeiras, em 1988, adquiriu a Fabrica da Pólvora para a transformar num local de lazer e cultura destruído o velho casario que restava.
     Passaram a viver ali, apenas duas ou três famílias, cujas casas reuniam razoáveis condições e uma delas era mesmo propriedade de um empregado da Fábrica, mas os acessos pouco foram melhorados, até que hoje, com a aquisição por parte da Câmara Municipal de Oeiras de todo aquele espaço, 44 hectares, apenas existe as instalações da Universidade Atlântica e moradores, antigos funcionários da fábrica, apenas sabemos que duas famílias ainda ali habitam.
      Uma delas na rua dos Sargentos e a outra na antiga propriedade do António Louro, que apesar de todas as benesses e obras ali realizadas, continuam a ter acessos difíceis, não podendo ir até à porta de sua casa qualquer viatura, mas as pessoas continuam vivendo de forma alegre e em condições aceitáveis, com ambas as famílias, provavelmente a desconhecerem o quão importante foi aquele bairro social no início do século passado.
  Gente que hoje ignora completamente quantas alegrias e tristezas ali se passaram e novas vidas ali foram concebidas.
  Gente que apesar de lidar com a morte no seu dia a dia, vivia feliz, organizada e sem grandes problemas e atropelos sociais, pois bem entendiam que a vida naquele tempo, imposta injustamente à classe trabalhadora por António Oliveira Salazar era assim mesmo, pois se pretendiam viver sossegados mais uns anos e sobretudo auferirem o magro ordenado referente ao trabalho que produziam para o estado português, tiveram que organizar suas vidas nestes retrógrados moldes, calar a boca, tapar os olhos, aliás, atitudes bastante vulgares em quase todas as zonas do país.
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segunda-feira, 25 de junho de 2012

O IMPORTANTE TRILHO QUE LIGAVA
O LUGAR DO BICO AO CASAL DE CABANAS
     Antigamente havia muito caminho rural, por onde apenas passavam pessoas, animais e carroças ligeiras, para se poder alcançar certos locais nas serranias, ou nos campos de cultivo distantes dos respectivos casais agrícolas.
  Em Torcena, existia um trilho que levava as pessoas desde o lugar do Bico ao Casal de Cabanas, que começava mesmo junto ao ribeiro que atravessava aquela pequena povoação onde viviam pouco mais de meia centena de pessoas e passava mesmo ao lado do cerradinho onde os caçadores, por norma, descansavam para almoçar.
    O caminho iniciava-se na margem direita do ribeiro e serpenteando por entre os combros que separavam as terras de semeadura, com o seu piso tosco e irregular com pedras soltas, buracos, que dificultavam imenso quem se obrigava a caminhá-lo, atingia-se o casal, de onde partiam outros trilhos, para S. Miguel da Serra, Leião, Talaíde, S. Marcos, ou Cacém.
     Pouco mais que um quilómetro distava desde o Bico ao casal agrícola onde trabalhavam muitas pessoas, nomeadamente mulheres, as bem conhecidas macanitas, que ali eram colocadas sazonalmente para fazerem o seu trabalho ligado a cultura do trigo, pois iniciavam a tarefa em Abril, estendendo-se até finais de Junho, depois de participarem na ceifa e finalmente nas debulhas e arrumo dos cereais e palhas nos armazéns.
  O caminho era ladeado de abrunheiros, figueiras e muitos silvados, que no seu tempo davam os seus saborosos e cobiçados frutos, que eram a delícia da juventude da época pois muitos aproveitavam para com eles fazerem a sua refeição já que as dificuldades eram imensa naquele tempo.
    As negras amoras eram uma guloseima, os doces figos e os acinzentados medronhos, colocados em camadas envoltos em palha debaixo da terra, constituindo um verdadeiro tesouro dos rapazes, pois só eles é que sabiam onde eles se encontravam, para depois, quando estivessem maduros, os comerem regaladamente.
     O caminho acabava por ser bastante fértil, pois para além destes alimentos, ainda criava, nas suas acidentadas e densas margens, saborosas azedas, que o mulherio apanhava para confeccionarem uma saborosa e económica sopa, assim como os esverdeados espargos, que embora fossem bravos, eram uma delícia e um alimento extraordinário.
      Aqui e acolá encontravam-se zambujeiros, que apenas serviam para dar sombra e para pouso das muitas aves que por ali paravam, constituindo a grande tentação dos rapazes, que armavam ratoeiras junto aos combros para as apanhar, nomeadamente trigueirões, cotovias, pardais do mato, piscos, arvelas, pitinhas e tantos outras.
    Quando chegava a época da caça, aquele caminho era muito frequentado pelos caçadores, pois nos seus combros, que se elevavam junto das irregulares bermas do velho trilho, habitavam com frequência coelhos e então os cães, com os seus estridentes latidos tudo faziam para os retirar dos seus civis e solarengas camadas, acabando por se verificar uma grande azáfama, com os animais nervosos correndo de um lado para o outro.
     Os caçadores também logo de manhã partiam para os extensos campos de Cabanas em busca das perdizes, que por ali existiam em abundância, e no começo do inverno, a caça mais apetecível se tornava, devido às muitas espécies de migração que sempre aparecia naqueles ricos terrenos e a rapaziada escondia-se nos combros desse caminho, sempre na mira das perdizes para ver onde elas pousavam derreadas.
     Corriam atrás delas e apanhavam-nas, e por vezes, até faziam melhores caçadas que os próprios caçadores, o que era sempre motivo de grande chacota.
     A meio desse caminho empedrado que separava o Bico do casal, existia uma velha casa em ruínas, quase já não se percebendo que fora em tempos de alguém que ali morava, ou armazém agrícola.
     O seu interior estava repleto de negras pedras, o que dava a entender serem das paredes que, com o tempo ali se foram amontoando, contudo o arvoredo crescera desmedidamente dentro do velho edifício, mal se distinguindo já, as portas e as janelas, contudo, mesmo assim aquele casarão em adiantadíssimo estado de degradação, bem servia para habitat de uma família de raposas, que, pela calada da noite saía do seu esconderijo em busca de alimento e era o que não lhes faltava, porque as terras de Cabanas eram férteis na criação de outros animais roedores e não só, contudo os caçadores sabedores que as raposas paravam por ali, faziam-lhes de quando em quando esperas, no sentido de as matar, para poderem exibir esse precioso e valioso troféu, aproveitando-lhes a pele e nada mais.
      Os empregados do casal, para adquirirem os seus alimentos, obrigavam-se a passar por esses ruins caminhos para atingirem a aldeia de Torcena, onde se encontrava o reduzido comércio mas que tanto lhes valia, confrontando-se com todos estes aliciantes que o caminho lhes proporcionava, qual passeio vespertino a um lindo jardim, pois sempre colhiam azedas ou espargos e em certas alturas do ano, ao domingo, quando folgavam apanhavam caracóis para os seus particulares petiscos.
    As mulheres eram mais apreciadoras dos frutos silvestres e enchiam a barriga com eles, pois assim, quase ficavam alimentadas, escusando de gastar os seus reduzidos farnéis, pois as amoras, os figos e os medronhos eram um excelente complemento de sua fraca alimentação e era isso que muitas das vezes as matinha aconchegadas durante o trabalho, que por norma se efectuava de sol a sol.
   Quando atravessavam o ribeiro para atingirem a tenda do António da Rosa, ou a mercearia do Calmaria em Torcena, obrigavam-se a passar por cima das pedras que eram colocadas no leito do ribeiro, para se poder passar de um lado para o outro, mas muitas desequilibravam-se e obrigavam-se a molhar as botas só que isso não causava problemas, pois bem ao invés era sempre alvo de grande rizada por parte das que não tinham sido atingidas pela essa falta de destreza.
     Pedras que por vezes desapareciam, nas enxurradas que quase sempre surgiam em dias de grandes chuvadas e que de novo eram ali colocadas, porque o ribeiro portava sempre muita água.
   Mal sabiam aqueles seres derreados pelo duro trabalho quotidiano, que naquele local, seis séculos antes, fora o posto de trabalho de muita gente, pois era precisamente ali, naquela passagem do ribeiro, que nesse tempo se encontrava um dos muitos engenhos de fabrico de pólvoras, e que tantas explosões assistiram, matando gente que se obrigava a servir os seus patrões, como que escravos se tratassem metidos num degredo imundo e verdadeiramente perigoso.
  Só muito mais tarde, precisamente em 1729, é que os engenhos de fabrico de pólvoras foram retirados das margens do ribeiro, porque o rei D. João V, mandara vir da Suiça um técnico de fabrico de pólvoras, precisamente António Cremer, para criar definitivamente a Real Fábrica da Pólvora de Barcarena que acabaria por funcionar até finais dos anos oitenta do século XX.
   As mulheres nada dessas histórias sabiam, pois o seu rude trabalho, quase se comparava ao que ali se registara séculos antes, só que enquanto os outros morriam frequentemente atingidos pelas violentas explosões, as macanitas, morriam sim, mas devido aos maus tratos que levavam naquela vida dura de trabalho e da miséria que passavam por se alimentarem mal e também devido à dureza do serviço, levando-as a contrair tuberculose e acabando, igualmente, por encontrarem a morte.
    Felizmente nem todas foram alvo dessa enfermidade, e hoje muitas ainda sentem uma grande felicidade, regendo-se, felizmente, por um estatuto social bem diferente, lembrando ainda com saudade o trilho que as levava do Bico ao casal de Cabanas, onde parecia que tudo havia, desde a alegria, à diversão, não faltando o natural alimento.
     Hoje esse caminho desaparecera por completo, devido à grande expansão urbanística que atingira aquela área, os trigais ondulados desapareceram, o seu verde viço deixou de se ver, as perdizes, os coelhos e as raposas extinguiram-se por completo e o velho trilho apenas é recordado pelos saudosistas.
     É lembrado por essa gente de trabalho, que endurecera os seus calejados pés e mãos ao atravessá-lo e ao desbravá-lo por vezes, onde nas suas margens tanta vez se acostaram para descansar um pouco, ou ver os caçadores no seu giro de caça, atentos ao voar da passarada, que era, sem sombra de dúvidas, um aliciante enorme para a juventude.
   Jovens que ocupavam os seus tempos livres em busca das enguias e dos barbos que abundavam mesmo junto a esses seixos e pedras de passagem no ribeiro e que, também constituíam agradáveis e profícuas refeições, sentindo hoje uma grande felicidade ao recordarem esses tempos que foram sem dúvida muito difíceis, mas consolados por esses anos já se terem passado.
   Hoje a vida é completamente diferente, mas naquele tempo era mais pura, mais salutar, sobretudo quando se encontravam no seio da natureza, pródiga, saudável, bravia mas sem sombra de dúvidas bem mais trabalhosa e produtiva e as pedras irregulares do velho trilho que os levava a Cabanas e que lhes deixara marcas irreparáveis, hoje apenas é lembrado porque foi nele que muita das vezes saciaram a fome, já que outra comida não havia, ou era muito escassa.
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